Batavo volta a Carambeí em espaço turístico após quase três décadas de mudanças no controle da marca
Casa da Holandesa, inaugurada na quarta-feira (12), recupera a memória de uma marca criada a partir do cooperativismo de imigrantes holandeses
Emerson Teixeira
Carambeí – A fachada da Casa da Holandesa, inaugurada na quarta-feira (12) em Carambeí, remete a uma história que começou muito antes de a Batavo se tornar uma marca conhecida em supermercados de todo o país. O novo espaço turístico recupera símbolos ligados à identidade holandesa e à produção de leite no município, mas também recoloca em evidência uma trajetória empresarial marcada por expansão, mudanças societárias, crises e sucessivas trocas de controle.
A Batavo nasceu em Carambeí, em 1928, dentro de uma estrutura cooperativa formada por imigrantes holandeses. Décadas depois, a marca alcançou projeção nacional e passou a integrar grandes grupos empresariais. Entre 1998 e 2015, a operação esteve ligada a Parmalat, Perdigão e BRF, até chegar à Lactalis, atual controladora da divisão de lácteos.
É justamente esse contraste que dá dimensão à inauguração da Casa da Holandesa: a marca retorna simbolicamente ao lugar onde surgiu, agora como elemento de memória, turismo e identidade local, embora tenha deixado de pertencer à estrutura cooperativa que esteve em sua origem.
Uma marca que nasceu junto com a comunidade
A presença holandesa em Carambeí remonta a 1911, quando chegaram à região as primeiras famílias de imigrantes. A atividade leiteira ganhou organização coletiva nos anos seguintes e, em 1925, foi criada a Sociedade Cooperativa Hollandeza de Lacticínios.
Três anos depois surgiu a marca Batavo. O nome fazia referência à Batávia, denominação histórica relacionada à Holanda, e apareceu inicialmente em embalagens de queijo.
O crescimento não ocorreu de forma isolada. A produção de leite, a industrialização e o cooperativismo passaram a fazer parte da própria formação econômica de Carambeí.
Em 1941 foi criada a Cooperativa de Laticínios Batavo. Em 1954, Batavo e Castrolanda se uniram para formar a Cooperativa Central de Laticínios do Paraná, a CCLPL, estrutura que ampliou a capacidade de industrialização e distribuição dos produtos.
Naquele período, a Batavo não era apenas uma marca comercial. Ela estava ligada a uma cadeia formada por produtores, cooperativas, indústria e consumidores. Essa origem ajuda a explicar por que o nome permaneceu associado à identidade de Carambeí mesmo depois das mudanças empresariais ocorridas décadas mais tarde.

De cooperativa regional a marca nacional
Nos anos 1990, a Batavo já havia ultrapassado os limites do mercado regional.
Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em abril de 1998 apontava participação de aproximadamente 12% da marca no mercado brasileiro de iogurtes e faturamento de R$ 483 milhões em 1997. O mesmo levantamento registrava planos de expansão e investimentos na operação. Foi naquele momento que ocorreu uma das principais mudanças da história da empresa.
Para receber um novo sócio e ampliar a capacidade de investimento, a CCLPL criou a Batávia S.A. A Parmalat adquiriu 51% da companhia, enquanto a estrutura cooperativa permaneceu com os 49% restantes.
A operação não foi uma simples venda da marca. Houve uma mudança no controle societário da empresa que concentrava a operação industrial e os direitos relacionados ao negócio.
A entrada do grupo italiano também provocou resistência entre parte dos cooperados. A Folha registrou, à época, oposição de cerca de 1.800 associados à parceria e apontou que a cooperativa enfrentava dificuldades financeiras. O episódio marcou a entrada de capital multinacional em uma empresa que havia sido construída a partir de uma estrutura cooperativa local.
Batávia, Batavo e a entrada da Perdigão
Outro ponto que costuma gerar confusão nessa trajetória é a existência de diferentes negócios associados ao nome Batávia. No início dos anos 2000, a Perdigão entrou no negócio de carnes por meio do Frigorífico Batávia. Essa operação era diferente da estrutura de lácteos responsável pela marca Batavo.
A Perdigão assumiu inicialmente 51% do frigorífico em 2000 e posteriormente adquiriu o restante da operação.
A mudança no setor de lácteos ocorreu alguns anos depois. Em 2006, em meio à crise da Parmalat no Brasil, a Perdigão comprou da companhia italiana os 51% que ela possuía na Batávia S.A. pelo valor de R$ 101 milhões.
Naquele momento, a Batávia era apresentada como uma das maiores empresas de laticínios do país. Dados divulgados pela Perdigão apontavam participação de 13,1% no setor, mais de 1.700 funcionários, cerca de 200 produtos e unidades industriais em Carambeí e Concórdia.
A empresa também mantinha uma rede de aproximadamente 940 produtores diretos distribuídos por 40 municípios e havia captado 220 milhões de litros de leite em 2005.
Esses números ajudam a dimensionar o caminho percorrido desde a pequena estrutura cooperativa formada por produtores de Carambeí até uma indústria com presença nacional.
A crise da Parmalat
A saída da Parmalat ocorreu dentro de um período de profunda crise financeira do grupo. A companhia italiana havia entrado em recuperação judicial no Brasil, e a venda da participação na Batávia fazia parte do processo de reorganização dos seus ativos.
Documentos da Comissão de Valores Mobiliários também registraram naquele período histórico de prejuízos, deterioração patrimonial e disputas relacionadas ao controle da Batávia.
Esses registros, porém, não significam que a marca Batavo ou seus produtos tenham sido responsabilizados pelas irregularidades que marcaram a crise internacional da Parmalat. O que se pode estabelecer é que a situação financeira do controlador contribuiu para a saída da companhia do negócio.
A Perdigão assumiu então o controle da operação de lácteos, mantendo a marca Batavo dentro de seu portfólio.

Da Perdigão à BRF
A história empresarial avançou novamente em 2009, quando Perdigão e Sadia anunciaram a fusão que daria origem à BRF. A operação foi concluída em 2012. A concentração gerada pela fusão levou o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a impor medidas para preservar a concorrência em determinados mercados.
Entre as exigências estavam a venda de ativos e restrições temporárias ao uso das marcas Perdigão e Batavo em algumas categorias de produtos. A medida não representou o desaparecimento da Batavo, mas afetou sua presença comercial em segmentos específicos durante o processo de reorganização do mercado.
O episódio é relevante porque mostra como a trajetória da marca também foi influenciada por decisões de órgãos reguladores, e não apenas por escolhas internas das empresas que passaram a controlá-la.
A venda que levou a Batavo à Lactalis
A mudança mais significativa ocorreu em 2015. A BRF decidiu vender sua divisão de lácteos à Lactalis, grupo francês especializado no setor. O negócio foi concluído em 1º de julho daquele ano. E não se tratou apenas da transferência de uma marca.
A operação envolveu a venda de 100% das ações da Elebat Alimentos S.A., empresa que concentrava a divisão de lácteos da BRF. O pacote incluía 11 unidades industriais, entre elas a fábrica de Carambeí, além de ativos e marcas. Batavo, Elegê, Cotochés, Santa Rosa e DoBon estavam entre os negócios transferidos.
O valor da transação foi de US$ 697,8 milhões, equivalente a aproximadamente R$ 2,1 bilhões nos registros da companhia. A partir dali, a Batavo passou a integrar o portfólio da Lactalis, grupo que mantém a marca no mercado brasileiro.
Por isso, dizer que a Lactalis simplesmente “comprou a Batavo” resume demais uma operação muito mais ampla. O que houve foi a aquisição de toda a divisão de lácteos da BRF, incluindo fábricas, ativos e marcas — entre elas a Batavo.

Uma marca que perdeu espaço, mas não desapareceu
A sequência de mudanças de controle teve reflexos sobre a posição comercial da Batavo. Levantamento citado pela revista PEGN em 2017, com dados da Euromonitor compilados pela Sonne Consulting, apontava redução da participação da marca no mercado de laticínios, de 3,3% em 2013 para 2,2% em 2016.
O mesmo material indicava perda de participação em algumas categorias, como manteiga e iogurte.
O dado deve ser entendido como um retrato de determinado período, e não como uma sentença sobre o futuro da marca. A Batavo continuou presente no mercado e permanece entre as marcas utilizadas pela Lactalis no Brasil. A trajetória, portanto, não é de desaparecimento. É de transformação.
O que retorna a Carambeí
É nesse contexto que a Casa da Holandesa ganha outro significado. O espaço inaugurado nesta quarta-feira foi apresentado como um novo ponto de conexão entre a história da Batavo e o turismo de Carambeí. A proposta inclui experiências relacionadas à memória da marca, gastronomia, fotografia e à cultura trazida pelos imigrantes holandeses.
A estrutura passa a integrar um circuito que já reúne atrações como o Parque Histórico, o Het Dorp e estabelecimentos gastronômicos ligados à tradição local.
Durante a inauguração, a prefeita Elisangela Pedroso destacou a relação afetiva de diferentes gerações com a marca e agradeceu à Lactalis pela iniciativa de recuperar elementos dessa história.
“É um momento de gratidão que Carambeí está tendo hoje com a empresa Lactalis por resgatar a nossa identidade. Resgatar aquilo que nós, carambeienses, vivemos enquanto criança”, afirmou a prefeita.
A proposta começou a ser apresentada cerca de um ano antes da inauguração e foi construída com participação de representantes do turismo municipal, do Parque Histórico, do Het Dorp, de estabelecimentos gastronômicos e da própria Batavo.

Memória local ou estratégia de marca?
A Casa da Holandesa pode ser observada sob dois ângulos que não necessariamente se excluem. Para Carambeí, representa uma oportunidade de recuperar e apresentar ao visitante parte de uma história que está diretamente ligada à formação econômica e cultural do município.
Para a Lactalis, a presença física da marca no local onde ela nasceu também cria uma conexão entre patrimônio, turismo, consumo e identidade empresarial. A questão central está justamente nessa sobreposição.
A Batavo que retorna a Carambeí não é mais a cooperativa que nasceu das mãos dos produtores locais. A marca hoje pertence a um grupo multinacional que adquiriu uma divisão de lácteos da BRF em 2015.
O que permanece local é a história. E é essa história — construída por imigrantes, produtores de leite, cooperativas, trabalhadores da indústria e sucessivos grupos empresariais — que agora ganha um endereço destinado a apresentá-la às novas gerações.
A Casa da Holandesa, portanto, não representa a volta da antiga Batavo ao controle de Carambeí. Representa algo diferente: o retorno simbólico de uma marca ao território onde nasceu, quase um século depois de seu primeiro rótulo aparecer em um produto.