Atleta paralímpico, Trajano Neto, quer deixar legado

Atleta paralímpico, Trajano Neto, quer deixar legado

Luana Dias

Quando o assunto é superação, sempre cabem histórias inspiradoras e surpreendentes. A do atleta paralímpico Trajano Neto sem dúvida é uma dessas. Quando perdeu totalmente a visão, do dia para a noite, aos 27 anos de idade, o ponta-grossense chegou a pensar que não teria condições de seguir com seus planos e projetos. “No momento da perda, achei que seria um ponto final”, destaca ele. E, de fato sua rotina e objetivos tiveram que mudar, no entanto, o que parecia o fim, tornou-se um recomeço, e atualmente com 35 anos, o paratleta não só conquista medalhas e títulos, superando-se a cada competição, como também tornou-se uma pessoa autônoma, focada e cheia de objetivos. “Na verdade aquele momento se tornou reticências, ou, um ponto e vírgula, foi quando tudo começou”, descreveu.

As últimas competições das quais Trajano participou foram nas Paralimpíadas Universitárias 2021, cujas provas aconteceram entre os dias 16 e 19 de setembro, no Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro em São Paulo, e renderam a ele três novas medalhas, duas de bronze: no arremesso de peso e no lançamento de disco, e uma de prata: no lançamento de dardo. Organizadas pelo Comitê Paralímpico Brasileiro, as Paralimpíadas, segundo o site oficial do evento, “têm por finalidade estimular a participação dos estudantes universitários com deficiência física, visual e intelectual em atividades esportivas de todas as Instituições de Ensino Superior do território nacional, promovendo ampla mobilização em torno do esporte”.

“Depois que eu perdi a visão, eu me descobri no esporte, através de uma instituição para pessoas com limitações visuais. De lá pra cá venho participando de várias competições e já tenho algumas conquistas. A primeira competição que eu participei foi em 2017, e esta última, nas Paralímpiadas Universitárias, até agora foi a competição de mais alto nível em que já estive. Lá eu tive a oportunidade de competir com atletas de todo Brasil, de altíssimo nível, alguns inclusive eram os paratletas que estavam nas Paralimpíadas de Toquio, representando o Brasil”, descreveu ele.

Nas Paralimpíadas Universitárias, Trajano representou a cidade de Ponta Grossa e a universidade Unicesumar da cidade, onde é acadêmico do sexto período do curso de Administração. O atleta também é vice-presidente da Associação Ponta-grossense de Emancipação da Pessoa com Deficiência Física, que conta no total com 28 paratletas, com diferentes tipos de deficiência. Além dele, outros quatro atletas da instituição também participaram das competições, representando outras universidades de Ponta Grossa. Na competição, outras 53 instituições universitárias também estavam presentes, com paratletas de todo Brasil. “A minha universidade ficou como segunda instituição na colocação geral da competição, e com o primeiro lugar no quadro de medalhas”, explicou Trajano.

Mas, não é só nas competições paralímpicas que Trajano dá exemplo de superação. Mesmo sendo deficiente visual, e não tendo nem mesmo percepção da presença de luz, ele mora sozinho e realiza todas as atividades cotidianas sem ajuda e de forma independente, inclusive, já viajou para outro estado para dar palestra. “Tenho uma saúde muito boa e uma rotina bem dinâmica, sou até doador de sangue, e sou uma pessoa muito ativa. Acordo cedo e costumo dormir tarde, ao longo do dia tenho uma rotina de treinos que inclui corrida, academia e natação, de segunda a segunda. Eu moro sozinho há cerca de cinco anos e tudo o que você pensar, eu faço, desde a minha alimentação até a manutenção do ambiente, e isso também inclui a alimentação balanceada. As pessoas falam em fórmula mágica, mas não existe, a única fórmula é a dedicação”, explica.

Quando perdeu a visão, Trajano era empresário, e trabalhava na área da construção civil. Hoje, ele se dedica ao esporte e aos estudos, afinal, o recomeço também incluiu sua volta às aulas. Ele, que tinha parado de estudar aos 14 anos, retornou, concluiu o ensino fundamental, depois o ensino médio e agora está na faculdade. Também faz curso de espanhol, e está cheio de novos planos. “Um menino que com 14 anos pulou o muro da escola dizendo que nunca mais voltaria, agora não quer sair da sala de aula nunca mais”, ressaltou. Até hoje Trajano não tem um diagnóstico preciso sobre o que o fez perder a visão.

Apoio fundamental

Um dos principais apoiadores de Trajano Neto, e que o patrocina quase que desde o início da trajetória de atleta é a empresa Ciacool, do castrense Nicolaas Nienhuys. Segundo descreve o paratleta, o auxílio ofertado pela empresa tem sido fundamental. “Foram eles que primeiro acreditaram em mim, e já há uns três anos, viram que eu tinha força de vontade e que treinava dia e noite para chegar ao meu objetivo, e passaram a me apoiar, agora sonham junto comigo os meus maiores sonhos. Hoje, por exemplo, o meu maior objetivo não é voltar a enxergar, claro que eu quero isso e seria muito bom se acontecesse, mas o meu maior objetivo é ter a oportunidade de participar dos Jogos Paralímpicos, e de deixar um legado: quando eu tive meu maior revés, eu descobri que poderia ir muito mais longe. E eu sei que o seu Nicolas e o pessoal da Ciacool também sonham esse sonho comigo, por isso, eu sempre vou dar o meu melhor para poder oferecer a eles”.

Além de fornecer todos os trajes usados pelo paratleta nas competições e treinos, a empresa castrense também apoia Trajano financeiramente para custear viagens que ele faz para competir. E só até o final deste ano, por exemplo, Trajano ainda tem cinco competições das quais irá participar. A próxima é de nível regional, e será realizada em Curitiba, daqui duas semanas.

Redação Página 1

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