4° Congresso da Abramilho discute estratégias do agronegócio brasileiro em meio a muitas incertezas

*Evento trouxe no Unique Palace pronunciamentos do vice-presidente Geraldo Alckmin; senadora Tereza Cristina; ministro André de Paula; presidente da Frente Parlamentar do Agro, deputado Pedro Lupion e presidente da Abramilho, Paulo Bertolini

Sandro A. Carrilho

Brasília concentra nesta quarta-feira (13) as principais discussões estratégicas do agronegócio brasileiro com a abertura do 4º Congresso da Abramilho, realizado no Unique Palace. Consolidado como um dos mais importantes fóruns nacionais voltados às cadeias produtivas de milho e sorgo, o encontro deste ano traz como tema central “Milho: o grão que revoluciona o mundo”.

A edição de 2026 acontece em meio a um cenário de mudanças significativas para a agricultura tropical. Representantes do setor produtivo, autoridades públicas e especialistas internacionais debatem estratégias para que o Brasil mantenha sua posição de destaque no mercado global diante das incertezas geopolíticas e do aumento da demanda mundial por alimentos e bioenergia.

A programação do congresso está organizada em painéis que discutem desde avanços em biotecnologia até os impactos dos custos logísticos na competitividade do agronegócio. Entre os principais desafios apontados pelo setor estão a volatilidade dos preços dos insumos agrícolas e do diesel, fatores que pressionam os custos de produção e exigem maior eficiência na gestão das propriedades rurais e da cadeia logística.

A solenidade de abertura também serviu para sinalizar as prioridades do governo e do Congresso Nacional para a safra 2026/2027. Em seus pronunciamentos, o vice-presidente Geraldo Alckmin, a senadora Tereza Cristina e o ministro André de Paula destacaram a necessidade de estabilidade econômica, investimentos em infraestrutura e fortalecimento das políticas de apoio ao produtor rural.

O milho como base da industrialização sustentável

Durante sua participação no congresso, o vice-presidente Geraldo Alckmin ressaltou que o milho ultrapassou o papel tradicional de commodity agrícola e passou a ocupar posição estratégica na industrialização verde do país. Segundo ele, a bioeconomia tornou-se prioridade do governo federal como forma de agregar valor à produção agropecuária brasileira.

Alckmin destacou que a expansão da produção de etanol de milho e dos farelos de alta proteína, conhecidos como DDGs, representa um exemplo concreto dessa nova etapa industrial do agronegócio. De acordo com o vice-presidente, o governo busca garantir um ambiente econômico estável para estimular o crescimento do PIB agropecuário e fortalecer os investimentos no setor.

A proposta, segundo ele, conecta a produção rural às tecnologias de descarbonização desenvolvidas pelo Brasil, ampliando a competitividade nacional e consolidando o país como referência internacional em bioenergia e sustentabilidade.

Infraestrutura e seguro rural entram no centro do debate

O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, direcionou sua participação no congresso para os principais gargalos enfrentados pelo agronegócio brasileiro. Segundo ele, o fortalecimento do Plano Safra, do Seguro Rural e da capacidade de armazenagem forma a base necessária para garantir maior segurança econômica ao produtor rural.

Entre os desafios apontados pelo ministro está a insuficiência de estruturas para armazenamento da produção agrícola. André de Paula destacou que a ampliação da rede de silos e armazéns é considerada prioridade pelo governo, permitindo que os produtores tenham melhores condições de comercialização e possam escolher o momento mais favorável para vender a safra.

Sem infraestrutura adequada, explicou o ministro, muitos agricultores acabam comercializando sua produção sob pressão do mercado, reduzindo as margens de lucro. Para enfrentar esse cenário, o governo federal pretende ampliar os investimentos destinados à modernização da logística de armazenagem dentro das propriedades rurais.

O seguro rural também foi tratado como uma das principais preocupações do setor. André de Paula reconheceu a necessidade de ampliar os recursos de subvenção diante dos impactos provocados pelas mudanças climáticas na produtividade agrícola. Segundo ele, o mecanismo é fundamental para preservar a capacidade financeira dos produtores e garantir condições para o plantio da safra seguinte.

O governo avalia ainda alternativas para expandir a cobertura do seguro em regiões de maior risco climático, especialmente nas áreas produtoras de milho safrinha e sorgo.

Competitividade e relações com a China ganham destaque no agronegócio

A senadora Tereza Cristina, vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, destacou a necessidade de segurança jurídica para garantir novos investimentos no agronegócio brasileiro. Segundo a parlamentar, regras claras e estabilidade regulatória são fundamentais para que os produtores continuem apostando em tecnologia e aumento de produtividade em um mercado internacional cada vez mais competitivo e protecionista.

Durante o evento, Tereza Cristina também alertou para o avanço dos custos de produção, impulsionados principalmente pelas despesas com transporte e pela carga tributária. A senadora defendeu uma atuação mais firme do Brasil nas negociações comerciais internacionais, com o objetivo de reduzir barreiras impostas aos produtos brasileiros e preservar a competitividade conquistada no campo até a chegada aos mercados externos.

Lupion protagoniza uma das manifestações mais contundentes

O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), Pedro Lupion, protagonizou uma das manifestações mais contundentes do congresso ao criticar as recentes exigências ambientais impostas pela União Europeia. Segundo o parlamentar, as medidas representam uma forma de protecionismo comercial disfarçado de preocupação ambiental. Para ele, o Brasil deve utilizar sua posição estratégica como um dos maiores fornecedores globais de alimentos para negociar em pé de igualdade no mercado internacional.

Lupion argumentou que a relação comercial entre Brasil e Europa não é marcada por dependência unilateral. Atualmente, o bloco europeu responde por 16% das exportações do agronegócio brasileiro, enquanto a China concentra 52% das vendas externas do setor. Na avaliação do deputado, essa diversificação dos mercados compradores amplia a capacidade de reação do país diante de eventuais sanções ou restrições consideradas injustificadas.

O parlamentar também defendeu a aplicação da chamada Lei da Reciprocidade, mecanismo legislativo que prevê tratamento equivalente entre produtos brasileiros e europeus. Pela proposta, eventuais barreiras impostas ao grão ou à proteína animal produzidos no Brasil poderiam ser respondidas com medidas proporcionais por parte do governo brasileiro. A iniciativa busca impedir que produtores nacionais sejam prejudicados por barreiras técnicas que, segundo o setor, desconsideram as regras previstas no Código Florestal Brasileiro.

Paulo Bertolini apresenta perspectivas produtivas para o mercado interno do milho

No segmento industrial, o presidente da Abramilho, Paulo Bertolini, apresentou perspectivas positivas para o mercado interno de milho. De acordo com ele, a indústria de etanol de milho consolidou-se como um dos principais fatores de sustentação dos preços do cereal no país.
Atualmente, o setor já processa mais de 20 milhões de toneladas de milho por ano. No entanto, a expectativa é de forte expansão nos próximos anos. Com a entrada em operação de novas usinas e a ampliação das unidades existentes, a capacidade de processamento deverá alcançar 40 milhões de toneladas anuais.

Segundo Bertolini, o avanço da indústria reduz o excedente destinado à exportação e diminui a exposição dos produtores às oscilações dos preços internacionais e aos custos logísticos dos portos. O movimento é visto pelo setor como um fator estratégico para fortalecer o mercado doméstico e ampliar a agregação de valor à produção agrícola brasileira.

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