Líder rural de Carambeí leva experiências de viagem técnica aos EUA para debate no campo paranaense

Ricardo Wolter integrou grupo de 40 representantes do Paraná que conheceu tecnologias de solo, inteligência artificial e modelos de produção em cinco estados norte-americanos

Da Redação

Carambeí – A tecnologia que começa a transformar propriedades rurais nos Estados Unidos pode ganhar espaço nas discussões entre produtores do Paraná. Essa é uma das principais conclusões trazidas pelo presidente do Sindicato Rural de Carambeí, Ricardo Wolter, após participar de uma viagem técnica aos Estados Unidos promovida pelo Sistema FAEP, em agosto.

Wolter integrou a terceira delegação paranaense organizada neste ano, formada por 40 lideranças rurais. Durante o roteiro, o grupo passou por cinco estados — Califórnia, Nebraska, Iowa, Illinois e Missouri — e conheceu soluções voltadas à análise de solo, gestão de propriedades, inteligência artificial, produção de grãos e representação dos interesses do setor.

Agora, a proposta é transformar o que foi observado fora do país em conhecimento compartilhado com agricultores paranaenses. No caso de Carambeí, Wolter pretende levar o conteúdo para atividades promovidas pelo sindicato e também discutir as possibilidades de aplicação das ferramentas com a cooperativa local.

IA entra no radar da gestão das propriedades

Em São Francisco, na Califórnia, uma das experiências chamou atenção pela forma como diferentes informações da propriedade podem ser reunidas para auxiliar o produtor nas decisões do dia a dia.

Durante encontro com Lamine Dabo, fundador da Agro-AI, os participantes conheceram uma plataforma que reúne dados provenientes de planilhas, máquinas agrícolas, fotografias e mensagens de áudio. A partir desse conjunto de informações, o sistema produz recomendações que podem apoiar a administração da atividade rural.

Para Wolter, o potencial da inteligência artificial vai muito além da utilização de máquinas no campo. A tecnologia, na avaliação dele, pode atuar justamente em uma área que costuma representar um desafio para o produtor: a gestão.

“O que falta para o produtor rural é a gestão. A IA pode ajudar nisso, com possibilidades ilimitadas. Isso vai desde controle financeiro e manutenção de equipamentos até a rotina de trabalho dos funcionários”, afirmou.

A intenção do dirigente é compartilhar esse conhecimento ao retornar a Carambeí, aproximando o debate tecnológico da realidade dos produtores da região.

A mesma percepção apareceu entre outras lideranças que participaram da viagem. Rui Barbosa de Carvalho, presidente do Sindicato Rural de Campina da Lagoa, considera que a inteligência artificial tende a se tornar cada vez mais presente nas atividades rurais e pretende apresentar aos produtores de sua região um resumo das experiências observadas nos Estados Unidos.

Tecnologia também chega ao diagnóstico do solo

Outro ponto observado pelos paranaenses foi o uso de tecnologia para obter informações mais detalhadas sobre as condições do solo.

Nos laboratórios da EarthOptics, em São Francisco, o grupo conheceu métodos capazes de avaliar características biológicas, físicas e químicas da terra. A tecnologia permite identificar problemas nutricionais e até sinais relacionados à presença de microrganismos que podem prejudicar as lavouras antes que os efeitos sejam percebidos visualmente nas plantas.

A possibilidade de trazer esse tipo de ferramenta para o Paraná passou a ser considerada por algumas das lideranças. Amarildo Agnolin, presidente do Sindicato Rural de Nova Cantu, avalia que uma aproximação entre laboratórios especializados e cooperativas poderia facilitar o acesso dos agricultores a esse tipo de diagnóstico.

A proposta, agora, é verificar quais estruturas semelhantes já existem no Paraná e onde ainda há espaço para ampliar a oferta desse serviço.

Viagem colocou modelos de produção frente a frente

Em Des Moines, Iowa, a comparação deixou de lado apenas as ferramentas tecnológicas e chegou à rotina de quem produz milho e soja.

Os paranaenses visitaram uma propriedade e observaram diferenças na produtividade do milho, além da estrutura utilizada na própria fazenda para secagem e armazenamento da produção. Ao mesmo tempo, encontraram problemas conhecidos dos agricultores brasileiros: custos elevados de insumos, variações nos preços das commodities e os desafios envolvidos na sucessão das propriedades familiares.

Para Luiz Carlos Zampier, vice-presidente do Sindicato Rural de Pitanga, a experiência também serviu para mostrar que a agricultura brasileira já ocupa uma posição competitiva em determinados aspectos.

“Percebi que, na soja, o Brasil está bem em tecnologia e produtividade”, afirmou.

Na avaliação de Zampier, o principal ganho esteve na possibilidade de observar tendências que podem chegar com mais força às propriedades brasileiras. Entre elas estão o uso de imagens, integração de dados, drones e robótica para reduzir os efeitos da falta de mão de obra.

Ele pretende levar essas observações para reuniões de diretoria e assembleias do sindicato em Pitanga.

Representação do produtor também entrou na agenda

A programação nos Estados Unidos não ficou restrita às propriedades e empresas de tecnologia. Em Illinois, a delegação visitou o Madison County Farm Bureau, entidade que atua na representação dos produtores rurais junto ao poder público.

O contato permitiu aos paranaenses conhecer uma estrutura de representação dos interesses do setor e comparar esse modelo com a atuação desenvolvida pelos sindicatos rurais e pelo Sistema FAEP.

No Paraná, entre as pautas defendidas pela entidade estão questões relacionadas à renegociação de dívidas agrícolas e ao seguro rural. A experiência também colocou em discussão a necessidade de ampliar a participação dos produtores nas estruturas de representação e preparar novas lideranças para acompanhar decisões que afetam diretamente a atividade agropecuária.

Para os participantes, esse aspecto se soma ao aprendizado tecnológico. A viagem não tratou apenas de máquinas ou ferramentas digitais, mas também de como produtores podem se organizar para influenciar políticas e decisões relacionadas ao campo.

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