Morre Harald V, Rei da Noruega que visitou Jaguariaíva em 2003

Por Rafael Pomim

Jaguariaíva – A morte costuma produzir um estranho movimento na memória: enquanto alguém parte, lugares distantes voltam a se encontrar. Hoje, 28 de agosto de 2026, morreu aos 89 anos o rei Harald V da Noruega. O comunicado da Casa Real informou que ele faleceu serenamente, às 6h35, no Hospital Universitário de Oslo. Foram 35 anos no trono, desde 1991, encerrando-se uma das mais longas páginas da história recente daquele país.

Mas, para nós, existe um detalhe capaz de aproximar Oslo de Jaguariaíva e transformar uma notícia internacional também em memória local. Harald V esteve aqui.

Foi em outubro de 2003. O rei e a rainha Sonja realizavam uma visita de Estado ao Brasil acompanhados por uma numerosa missão empresarial e governamental. Segundo registros da época, aquela era a maior e mais diversificada delegação norueguesa do gênero já enviada ao país, reunindo cerca de 150 integrantes. Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro estavam naturalmente no roteiro. E, entre as grandes capitais brasileiras, apareceu um nome que talvez surpreendesse quem olhasse o programa da viagem do outro lado do Atlântico: A razão era econômica. Aqui estava instalada a Norske Skog Pisa, empreendimento de origem norueguesa que representava um dos grandes investimentos daquele país no Brasil. Harald percorreu a fábrica acompanhado pelo então governador Roberto Requião e por dirigentes da empresa. Naquele momento, falava-se em investimentos de aproximadamente R$ 400 milhões para ampliar a produção da unidade. A importância da indústria para a economia jaguariaivense era tamanha que reportagens da época estimavam sua participação em cerca de metade do PIB municipal.

Enquanto o rei conhecia a fábrica, a rainha Sonja tomou outro caminho e escreveu uma página particularmente afetuosa daquela passagem. Visitou a Escola de Educação Especial São Judas Tadeu, da APAE de Jaguariaíva, conheceu trabalhos realizados pelos alunos, assistiu a uma apresentação e recebeu uma homenagem. O casal real fez ainda uma doação de R$ 10 mil à instituição. Depois, rei e rainha voltaram a se encontrar na fábrica, onde houve almoço e apresentação do coral da APAE.

É uma dessas cenas que o tempo vai empurrando lentamente para as páginas amareladas dos jornais, até que outra notícia venha despertá-las. Hoje, ao ler sobre a morte de Harald V, não consegui pensar somente no monarca europeu, no homem que atravessou guerras, reinou durante mais de três décadas e se tornou uma figura de estabilidade para os noruegueses. Pensei também naquele dia em que uma pequena cidade dos Campos Gerais recebeu um rei.

Harald tinha, aliás, uma relação incomum com o Brasil. Veio ao país ainda príncipe, em 1964; quatro anos depois, ele e Sonja escolheram o Rio de Janeiro para a lua de mel. Décadas mais tarde, em 2013, realizou um antigo desejo pessoal ao passar quatro dias entre os Yanomami na Amazônia, encontrando-se com Davi Kopenawa. Sua própria família possuía vínculos brasileiros: a irmã, princesa Ragnhild, viveu durante muitos anos no país. O Brasil não era, portanto, apenas mais uma escala no calendário diplomático daquele rei.

Talvez por isso a visita de 2003 tenha algo ainda mais interessante quando vista à distância. Reis geralmente pertencem às fotografias dos palácios, aos salões dourados, às carruagens, aos cerimoniais que parecem existir longe demais de nossas pequenas cidades. Naquele outubro, porém, a História fez uma curva inesperada e veio parar aqui. Por algumas horas, Jaguariaíva figurou no itinerário oficial de um chefe de Estado europeu. Um rei atravessou nossas ruas, visitou uma de nossas indústrias, sentou-se à mesa em nossa cidade; a rainha entrou na nossa APAE e encontrou nossos alunos.

Vinte e três anos se passaram. A empresa mudou, a cidade mudou, muitos daqueles que participaram daquele dia talvez já não estejam entre nós. As fotografias ficaram mais antigas e a visita de um rei acabou transformada naquela espécie de lembrança que começa com a frase: “Eu me lembro daquele dia…”.

Hoje, Harald V também passou definitivamente para a História.

A Noruega despede-se de seu rei. O trono passa ao filho, Haakon VIII. E nós, deste lado do Atlântico, podemos guardar uma lembrança muito particular: entre tantas cidades do mundo pelas quais Harald passou em quase nove décadas de vida, houve um dia em que o destino escreveu Jaguariaíva em sua agenda.

Para uma cidade, não é pouca coisa ter recebido um rei. Para a memória, menos ainda.

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