Castro se despede de Pedro Júlio Barth, o ‘Pedro do Moinho’, aos 90 anos

Filho de imigrantes alemães, agricultor construiu sua trajetória na Colônia Terra Nova entre o antigo moinho da família, a produção rural e uma vida profundamente ligada à natureza

Hurlan Jesus

Castro – A cidade de Castro perdeu nesta quinta-feira (27) um personagem que carregava consigo parte da memória da vida rural da Colônia Terra Nova. Pedro Júlio Barth, conhecido por muitos como “Pedro do Moinho”, morreu aos 90 anos, na propriedade onde passou grande parte da vida, cercado pela mata e pelo ambiente que escolheu para viver até os últimos dias.

A história de Pedro atravessa diferentes momentos do desenvolvimento da própria comunidade. Filho de imigrantes alemães que chegaram ao Brasil em 1934 em busca de uma nova vida, ele nasceu em 1º de dezembro de 1935 e cresceu em uma família que encontrou no trabalho a principal forma de superar as dificuldades dos primeiros anos no país.

As lembranças foram compartilhadas com o Página Um News pelo sobrinho Alexandre Hubert, que acompanhou de perto Pedro nos últimos anos e reuniu histórias da trajetória do tio.

O moinho que marcou uma geração

Na década de 1950, o pai de Pedro, Eduardo, adquiriu um antigo moinho existente desde os primeiros tempos da Colônia Terra Nova.

No local, uma roda d’água movimentava o moinho, a serraria e parte da estrutura utilizada para a produção de farinha. Em uma época anterior à mecanização que posteriormente transformaria o campo, o espaço tornou-se ponto de referência para moradores de diferentes localidades.

Segundo as memórias da família, os sábados estavam entre os dias de maior movimento. Carroças chegavam de Terra Nova, Maracanã, Lago e outras comunidades, carregando milho para ser processado.

A demanda levou Pedro e o pai a ampliarem a estrutura. No moinho de pedra, milho e trigo eram transformados em farinha, enquanto a serraria recebia toras que se tornavam tábuas, vigas e outros materiais utilizados pelas famílias da região.

Décadas depois, aquela atividade acabaria dando a Pedro uma identidade que o acompanharia por toda a vida.

Ele e a esposa, Maria Hubert, ficaram conhecidos entre os moradores simplesmente como “Pedro e Maria do Moinho”.

Do moinho à agricultura

Ainda jovem, Pedro também se dedicou à criação de porcos. Com um caminhão, transportava os animais para comercialização em Ponta Grossa e também levava a produção de familiares.

Em 1965, casou-se com Maria. Pouco depois, o casal e Eduardo seguiram para a Alemanha, onde passaram alguns anos morando e trabalhando. O moinho e a serraria permaneceram aos cuidados de uma pessoa de confiança da família.

No fim da década de 1970, Pedro retornou com a esposa e o pai para a Colônia Terra Nova.

A década seguinte trouxe mudanças importantes. Com o avanço de novas máquinas e tecnologias, atividades tradicionais como o moinho de pedra, a serraria e a produção artesanal de farinha começaram a perder espaço.

Pedro, então, voltou sua dedicação principalmente à terra.

Passou a plantar hortaliças, mandioca, batata-doce, batata-salsa, batata comum, tomates e outros produtos, construindo uma clientela em Castro.

Uma ou duas vezes por semana, seguia de caminhonete até a cidade para fazer as entregas. Entre os estabelecimentos atendidos estava o Supermercado Iapó, lembrado pela família como um de seus principais clientes.

A atividade continuou por décadas. Pedro permaneceu trabalhando como agricultor até idade avançada, mantendo uma rotina que pouco se afastava daquela que conheceu desde jovem.

Uma vida moldada pela natureza

Mais do que uma profissão, o campo tornou-se o modo de vida de Pedro. Alexandre lembra do tio como um homem extremamente ligado à natureza e pouco interessado nas comodidades da vida moderna. Com o passar dos anos, essa relação se tornou ainda mais evidente.

Pedro observava o céu, a mata e as mudanças do tempo. Segundo o sobrinho, conseguia reconhecer sinais de chuva ou de seca simplesmente pela experiência acumulada ao longo de décadas.

Em uma das conversas entre os dois, Alexandre chegou a perguntar sobre sua relação com Deus. A resposta de Pedro resumiu muito da forma como enxergava o mundo: para ele, era difícil imaginar alguém passar a vida trabalhando como agricultor e não enxergar algo maior na natureza. Era naquele ambiente, afastado da cidade, que queria permanecer.

Incêndio destruiu a casa

A permanência na propriedade também foi marcada por momentos difíceis. Em 2022, um incêndio provocado pelo fogão a lenha tomou conta da residência durante a noite. Para escapar das chamas, Pedro precisou sair pela janela.

A casa foi praticamente destruída.

Com a ajuda do primo Leo Barth, parte do imóvel foi reconstruída, permitindo que Pedro continuasse vivendo no local. Já nos últimos anos, a idade começou a limitar uma independência que ele havia preservado por tanto tempo.

Problemas de visão chegaram a dificultar a rotina, mas, após passar por cirurgia de catarata, voltou a enxergar e chegou novamente a dirigir sua caminhonete e fazer atividades na cidade.

Posteriormente, as dificuldades de mobilidade aumentaram e familiares passaram a auxiliá-lo com compras, alimentação e outras necessidades.

Maria, sua companheira de décadas, morreu em julho de 2025. Pedro permaneceu na propriedade.

No fim daquele mesmo ano, completou 90 anos. O desejo de permanecer em casa

Nos últimos meses, Alexandre e outros familiares intensificaram os cuidados com Pedro.

Mesmo diante das limitações impostas pela idade, o sobrinho recorda que ele manteve o bom humor e a gratidão por aqueles que estavam ao seu lado.

Pedro também deixou claro um desejo: não queria abandonar sua casa para passar os últimos dias em outro lugar.

No início de agosto, chegou a dizer ao sobrinho que acreditava que não chegaria vivo ao fim do mês. Na manhã desta quinta-feira, 27 de agosto, a previsão feita por ele próprio acabou se concretizando.

Pedro Júlio Barth morreu no lugar que escolheu para viver, em meio à mata da Colônia Terra Nova.

Para Alexandre, os últimos anos ao lado do tio deixaram ensinamentos que ultrapassam a própria história familiar. Mais do que o moinho, a caminhonete ou as muitas décadas dedicadas ao trabalho, ficaram as conversas, as histórias e a forma simples com que Pedro encarava a passagem do tempo.

A morte encerra uma trajetória de 90 anos, mas preserva na memória da família e da comunidade a história daquele que, por tantas décadas, foi simplesmente Pedro do Moinho.

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