NA UCRÂNIA: Castrense luta na linha de frente contra invasão russa

NA UCRÂNIA: Castrense luta na linha de frente contra invasão russa

Luana Dias

“Aqui caem bombas a todo momento. Ontem fomos cercados por cinco tanques russos, passamos cerca de seis horas em conflito direto para neutralizar os invasores”, o relato é do castrense Cristiano Mariano, que está na região de Barvinkove, na Ucrânia, na linha de frente da guerra contra a invasão russa.

Apesar das dificuldades na comunicação, Cristiano falou, diretamente da Ucrânia, com a reportagem do Página Um News, na semana em que os conflitos no país completaram 100 dias. Segundo descreveu o jovem, quando a guerra começou, ele ingressou no país europeu, primeiramente para contribuir com ajuda humanitária, e algumas semanas depois, passou a integrar o Exército Territorial da Ucrânia.

Durante a entrevista, que levou alguns dias para ser concluída, devido justamente as restrições as quais estão sujeitos os soldados, e a diferença de fuso horário, Cristiano falou sobre as motivações que o colocaram à linha de frente dos conflitos no Leste europeu, e que fizeram com que o professor de Filosofia, que ministrava aulas para turmas do ensino médio no Paraná, trocasse a caneta e a sala de aula, pela farda e armas. “Minha relação de amor com a Ucrânia já é antiga, antecede o início da guerra. Desde criança sempre gostei muito de estudar, buscava incessantemente compreender as raízes da minha árvore genealógica, justamente porque acredito que para me compreender melhor é preciso tomar ciência de todo o esforço que meus antepassados fizeram para que eu chegasse até aqui. No ano de 2008 morava com minha família em Prudentópolis, onde cerca de 75% da população é descendente de ucraniano, foi lá, e também conversando com meu pai, que descobri que meus bisavós vieram de uma região da Ucrânia chamada de Galícia. Depois disso fui me aproximando cada vez mais da história e da cultura ucraniana. Quando a Rússia declarou guerra total contra a Ucrânia, senti profundamente a vontade de ajudar de alguma forma”, destacou.

Cristiano está na Ucrânia há pouco mais de 60 dias, e acompanhou diferentes fases do conflito, que segundo o próprio presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, já aniquilou dezenas de milhares de vidas, entre civis e combatentes ucranianos. O número exato de vítimas, no entanto, até agora não foi divulgado de forma oficial pelos órgãos ligados aos governos em confronto. Mesmo estando onde a guerra ocorre, não é fácil fazer previsões de como ou de quando o confronto iniciado pela invasão russa pode acabar. “Tenho a impressão que o conflito se prolongará por mais uns cinco anos, porém, pode ser que em menos de um mês chegue ao fim, é muito complicado afirmar algo neste momento”, ressaltou o soldado.
O castrense também falou sobre a resistência ucraniana, que entrou no quarto mês de guerra, “a Ucrânia não vai se render, vão fazer de tudo para resistir contra a invasão russa”, destacou Mariano, citando ainda os recursos usados pelos soldados russos. “Atualmente os russos estão trabalhando muito com a artilharia, a guerra hoje é totalmente tecnológica, é preciso tomar muita atenção com os drones”, comentou.

De acordo com o soldado, em alguns momentos, sobretudo, nos últimos dias, foi inevitável pensar que poderia não voltar para o Brasil com vida. “Os piores dias que eu passei na linha de frente foram o dia 1º e 2 de junho. A cidade que estávamos protegendo foi invadida, e a nossa base foi tomada por cinco tanques russos, no posto de guarda onde estávamos eu e mais um soldado da República Tcheca, fomos cercados por dois tanques russos, com cinco soldados cada, eles se aproximaram a uma distância de cem metros e descobriram nosso posto, então começaram a disparar. Um drone russo identificou a nossa localização, e automaticamente, a artilharia russa começou a enviar misseis para nossa posição. Naquele momento imaginei que não ia sair vivo dali. Várias bombas foram caindo a cinco, dez metros de distância de onde eu estava, um estilhaço de bomba bateu no meu capacete, foi um susto. Mas graças a Deus saímos vivos daquela situação, teve uma resposta dos soldados ucranianos e conseguimos abater dois tanques russos, outros três fugiram. Nesse dia foram praticamente seis horas de batalha, e durante a madrugada teve bombardeio na base, na manhã seguinte, recebemos a informação de que 200 soldados russos se deslocavam para a região onde estávamos”, descreveu.

O combatente chegou a ver sua foto, juntamente com a de outros brasileiros, em uma página da internet russa, classificando estrangeiros que estão lutando ao lado de soldados ucranianos, como mercenários. “Nossa cabeça estava valendo dinheiro. A Rússia considera inimigos todos os estrangeiros que vieram para lutar contra a invasão que estão promovendo”, explicou.

Apesar de estar vivendo uma árdua experiência na região em guerra, o castrense afirmou que pretende regressar ao país, em tempos de paz. “Quero voltar, mas não durante o período de guerra, quero voltar em tempos de paz, até porque eu fiz muitas amizades aqui, com os soldados ucranianos e com as famílias, quer visitá-los no futuro”, finalizou o combatente, que também está ansioso para voltar ao Brasil, e para rever a família.

Redação Página 1

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