Pelotão da FEB desfilou em Tibagi
Desfile com ex-pracinhas marcou a história de Tibagi e antecedeu a encenação da Tomada de Monte Castelo, que reuniu milhares de pessoas e resgatou a participação da FEB na Segunda Guerra Mundial.
Renato de Oliveira
Especial para P1News
A cidade de Tibagi, no Paraná, protagonizou, na década de 80, um fato histórico ao promover o desfile de um pelotão de ex-pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que tomou conta das ruas centrais. Perfilados em quatro colunas, 40 combatentes, entre militares das mais diversas patentes, ainda que com passadas mais lentas devido à idade avançada da maioria, o pelotão dos febianos ganhou aplausos e o respeito dos moradores locais. Até mesmo uma enfermeira que prestou serviço no conflito militar da Segunda Guerra marcou presença neste desfile. Toda esta ação, realizada no período da manhã, antecipou a Encenação da Tomada de Monte Castelo — projeto cultural promovido pela Associação de Moradores da Vila Santa Cruz, de Castro, e que integrou o Projeto Independência.
Criado em Castro pelo empresário e ex-vereador Izidro Constantino Guedes, o Projeto Independência, no seu início, retratava, num teatro a céu aberto, a cena do encontro do mensageiro com Dom Pedro I e que resultou no ato conhecido historicamente como o ‘Grito do Ipiranga’. A encenação, protagonizada em sua maioria por estudantes e que teve o cartorário Zilo Aiçar de Sus na figura do Príncipe Regente de Portugal, foi realizada na margem direita do rio Iapó, simbolizando as margens do riacho Ipiranga. O projeto, realizado na Semana da Pátria, ganhou novos quadros, cenários e acabou sendo levado para a cidade de Tibagi.

Monte Castelo em Tibagi
Com o apoio do então prefeito José Tibagy de Mello (Zezito) e da Câmara Municipal, em agosto de 94, o projeto recebeu ampliação e passou a ser apresentado no Horto Florestal. Em sua primeira apresentação, a Tomada de Monte Castelo em Tibagi, além do pelotão dos 40 febianos que desfilaram pela cidade, levou, na época, perto de outros sessenta ex-pracinhas do Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul e militares de outros estados que tiveram participação efetiva no teatro de operações da Segunda Guerra Mundial e que marcou a vitória mais emblemática da FEB, consolidada em 21 de fevereiro de 1945, contra as tropas da Alemanha nazista, no norte da Itália.
Figuras de destaque
O espetáculo reuniu em Tibagi um público estimado em 20 mil pessoas, políticos, autoridades civis e militares. Dentre as figuras de destaque, foi registrada, na época, a presença do então presidente da Legião Paranaense do Expedicionário, segundo-tenente Thomaz Walter Iversen, e da major Elza Cansançao Medeiros, primeira enfermeira a se apresentar como voluntária do Exército Brasileiro. De Ponta Grossa, o capitão Alfredo Bertoldo Klas e o tenente Wilson Garcia de Lima, e ainda o alto escalão militar do 13º BIB, participaram do ato. De Castro, marcaram presença os pracinhas da FEB, segundo-sargento Manoel Santiago da Silva e o segundo-tenente Elzevir Priotto, e militares do 5º Batalhão de Infantaria Mecanizado.
Com duração de duas horas, o espetáculo contava desde a convocação dos mais de 25 mil pracinhas brasileiros e o embarque da tropa no Rio de Janeiro, a chegada na Itália, período de adaptação, treinamentos, rigor do inverno, despreparo da vestimenta e do armamento, três tentativas frustradas até o rompimento da Linha Gótica alemã, que abriu caminho para o avanço dos aliados na Europa, pondo fim ao conflito da Segunda Grande Guerra.
Em Tibagi, a figura heroica do sargento paranaense Max Wolf Filho recebeu destaque especial, e o personagem foi revivido pelo pecuarista e empresário tibagiano Márcio Schioet. De um total de 1.500 pracinhas paranaenses enviados para a guerra, o castrense João de Oliveira do Carmo, nascido na região de Catanduvas, em Carambeí, durante uma ação de combate que se desenvolvia na região de Falfare, na Itália, bem próxima ao Monte Castelo, foi atingido por um estilhaço de granada e tombou mortalmente ferido. O dia era 20 de fevereiro de 1945. E foi assim que o valente soldado castrense ofereceu sua vida em defesa de todos nós. Seu corpo foi sepultado no cemitério brasileiro de Pistoia, na quadra A, fileira 9, sepultura de número 98. Hoje, seus restos mortais se encontram no Monumento Nacional aos Pracinhas, no Rio de Janeiro.

Cobertura jornalística
Inédita no território nacional, a encenação da Tomada de Monte Castelo recebeu cobertura jornalística dos mais importantes meios de comunicação da época, como a extinta Rede Manchete de Televisão, SBT, Record e das afiliadas da Rede Globo, TV Londrina e TV Esplanada, Canal 7 de Ponta Grossa. Emissoras de rádio paranaenses e jornais como Gazeta do Povo, Estadão, Folha de Londrina, Estado do Paraná, Correio de Notícias, A Tribuna e ainda Diário da Manhã, Diário dos Campos e a revista Veja abriram espaço para noticiar o evento.

Encenação transferida para PG
Em 27 de agosto de 1995, a Tomada de Monte Castelo deixou a cidade de Tibagi e foi transferida para Ponta Grossa, passando a ser encenada em área do quartel do 13º BIB, com participação exclusiva de militares da ativa. Nesta época, além da cobertura da imprensa regional, a editora de vídeos Terra Verde, de Castro, comandada por Sílvio Duarte dos Santos, produziu um documentário em fita VHS da encenação da Tomada de Monte Castelo, que mais tarde foi comercializada e distribuída de forma gratuita nas escolas públicas e outros setores. O documentário, com imagens e sons reais da Segunda Guerra Mundial e imagens colhidas durante a encenação, reproduziu a participação da FEB e teve o apoio do Governo do Estado da época, da 5ª Brigada de Infantaria Blindada e da Prefeitura de Ponta Grossa.
Último febiano vivo do Paraná
Atualmente, restam apenas 21 veteranos vivos da Força Expedicionária Brasileira. Os dados são do Centro Permanente da FEB, que mapeia, apoia e preserva a memória dos últimos combatentes da Segunda Guerra Mundial. Este número vem sofrendo uma redução devido à idade avançada destes heróis nacionais, que hoje têm entre 98 e mais de 105 anos. Dos 25.334 soldados (conhecidos como pracinhas) enviados para combater o nazifascismo na Itália, entre 1944 e 1945, este grupo centenário representa os últimos testemunhos vivos daquela campanha histórica.
No Paraná, dos 1.500 combatentes, um único pracinha ainda está vivo. Trata-se de Joaquim Ignacio Goulart Mayer, segundo-tenente, hoje com 100 anos de idade e que mora no bairro Orleans. Já o terceiro-sargento João Trela morreu em 10 de agosto de 2026, em Curitiba, depois de completar 102 anos. Curiosamente, este penúltimo ex-pracinha morava na rua denominada Monte Castelo, no bairro Tarumã.