Feira fortalece cultura indígena e preservação das sementes crioulas no interior de Castro
Evento reuniu comunidades indígenas, agricultores familiares e visitantes em Abapã para um dia de troca de saberes, valorização da cultura ancestral e incentivo à agricultura sustentável
Hurlan Jesus
Castro – A II Feira de Cultura Indígena e Sementes Crioulas transformou a Comunidade Coletivo Yvy Iporã, no distrito de Abapan, em Castro, em um espaço de encontro entre tradição, conhecimento e sustentabilidade. Realizado no último sábado (18), o evento reuniu povos indígenas, agricultores familiares, guardiões de sementes, artesãos e visitantes em uma programação voltada à valorização dos saberes ancestrais e ao fortalecimento da agroecologia.
Ao longo do dia, o público participou de oficinas, apresentações culturais, momentos de espiritualidade, exposição de artesanato e da tradicional troca de sementes crioulas, prática que busca preservar variedades cultivadas há gerações e incentivar uma agricultura mais diversificada e livre de modificações genéticas.
Líder do Coletivo Yvy Iporã, Vanderson Roberto Benitez explicou que a história da comunidade está diretamente ligada aos povos originários que ocuparam a região e destacou a importância da preservação das sementes tradicionais.
“Aqui viveu o povo Abapany, viveu o povo Kaingang e hoje vive aqui o povo Kaiowá Guarani. A semente crioula é a semente caipira, originária, que não tem transgenia, não foi modificada. É uma semente natural com mais de 12 mil anos.”
Segundo ele, a rede de guardiões das sementes mantém viva essa tradição por meio da troca entre agricultores de diferentes regiões, garantindo que variedades antigas continuem sendo cultivadas e compartilhadas entre as comunidades.
A presidente do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (COMPIR), Liliane Cardoso, ressaltou que a troca de sementes vai muito além da produção agrícola, representando um compromisso coletivo com a preservação da vida e da segurança alimentar.
“Os guardiões das sementes crioulas se conectam, se encontram e fazem essa troca para que a gente possa retornar aos territórios, fazer o plantio, colher, encher o nosso prato e o prato de tantas outras famílias. É uma maneira de preservar e cuidar para que essa semente, livre do veneno, possa perpetuar”.
Além da preservação dos saberes tradicionais, a feira também fortaleceu iniciativas ligadas à economia solidária. A coordenadora da Associação Feira Permanente, Bernardete Cosme da Silva, destacou que eventos como esse aproximam produtores, artesãos e consumidores, criando oportunidades de geração de renda e valorização dos produtos locais.
“A Rede Mandala faz a união do campo com a cidade. Essa união de pessoas trabalhando juntas fortalece a geração de renda e valoriza o trabalho desenvolvido pelas comunidades.”
Durante a feira, agricultores aproveitaram a oportunidade para ampliar suas coleções de sementes. Entre eles estava José Rivair, morador do Guararema, que levou para casa variedades como milho preto, milho roxo, milho branco e milho dourado para o plantio. Já Ismael Fonseca, morador de Abapã, contou que participa das trocas para recuperar sementes que já desapareceram de sua propriedade, reforçando a importância da iniciativa para a conservação da diversidade agrícola.
O evento também despertou o interesse de visitantes que conheceram pela primeira vez a riqueza cultural da comunidade. A turista Maria do Carmo Santos, de Presidente Prudente (SP), resumiu a experiência com entusiasmo ao comentar a diversidade de sementes e produtos expostos durante a feira.
Além das atividades culturais e agrícolas, os participantes conheceram parte da história dos primeiros habitantes da região por meio de uma visita às casas subterrâneas existentes na comunidade. Durante a atividade, foi explicado que essas estruturas foram construídas por povos originários para enfrentar as baixas temperaturas do período pós-glacial e fazem parte do importante patrimônio arqueológico de Castro. Os visitantes também receberam informações sobre a convivência desses povos com animais da megafauna, que habitaram a região milhares de anos atrás.
Mais do que uma feira, o encontro reafirmou a importância da preservação das culturas indígenas, da agricultura tradicional e dos conhecimentos transmitidos entre gerações. Ao reunir diferentes comunidades em torno da troca de experiências, das sementes crioulas e do respeito à natureza, a iniciativa fortaleceu a identidade cultural do município e evidenciou a riqueza histórica presente no interior de Castro.









