Escassez de fertilizantes pode reduzir uso de fosfatados no Brasil em até 30%
Mosaic prevê queda na oferta global, redução da produção brasileira e pressão sobre custos e produtividade das lavouras a partir dos próximos meses
Da Redação*
São Paulo – A disponibilidade de fertilizantes fosfatados deve se tornar um problema mais evidente para os produtores brasileiros a partir de setembro. A avaliação é da vice-presidente executiva da Mosaic, Jenny Wang, que aponta a redução dos estoques acumulados no país no início de 2026 como um dos fatores que devem antecipar os efeitos da restrição global de oferta.
Em entrevista à CNN realizada em agosto, Wang afirmou que o Brasil conseguiu retardar o impacto da crise porque importou grandes volumes de fertilizantes fosfatados nos primeiros meses do ano. Esses produtos formaram estoques que sustentaram parte do consumo enquanto a oferta internacional começou a diminuir.
Esse colchão, porém, estaria próximo do fim. A executiva estima que os estoques da Mosaic no país terminem até o fim de agosto e que, a partir daí, a redução da disponibilidade passe a atingir de forma mais direta os agricultores brasileiros.
A projeção apresentada pela empresa é de que a aplicação de fertilizantes fosfatados no Brasil possa recuar até 30% caso o atual cenário de restrição permaneça e não haja normalização dos fluxos comerciais.
O impacto não ocorre de maneira uniforme entre os países. Na Índia, por exemplo, os estoques já eram reduzidos no começo do ano, justamente quando se aproximava o período de plantio. Por isso, a falta de produtos, especialmente do DAP, um dos fertilizantes fosfatados mais utilizados pelos agricultores indianos, apareceu mais rapidamente.
No Brasil, a existência de estoques maiores adiou esse efeito. A diferença, agora, tende a diminuir à medida que o produto armazenado seja consumido.
Menor uso pode afetar produtividade
A redução da aplicação de fosfatados preocupa não apenas pelo custo dos insumos, mas também pelo possível reflexo sobre a produtividade agrícola.
A avaliação da executiva é de que o impacto pode se tornar mais significativo caso as lavouras enfrentem condições climáticas desfavoráveis. Wang citou a possibilidade de influência de um super El Niño em áreas do Norte do Brasil e em regiões da Ásia.
O cenário ocorre em um momento de pressão sobre os produtores, que também lidam com condições econômicas menos favoráveis e restrições na oferta de crédito.
Para a Mosaic, uma eventual recuperação dos preços dos grãos poderia compensar parte da elevação dos custos com fertilizantes. Caso isso não aconteça, a combinação de insumos mais caros e menor produtividade poderá ampliar a pressão sobre a renda do produtor.
Produção brasileira deve cair
A redução da matéria-prima já levou a Mosaic a diminuir gradualmente sua produção de fosfatados no Brasil. Algumas unidades foram paralisadas nos últimos meses, enquanto a fábrica de Araxá (MG) foi colocada à venda.
A empresa estima que a produção brasileira possa sofrer uma redução de 50% ou até mais. A companhia também adotou medidas semelhantes nos Estados Unidos, onde duas das quatro unidades produtoras tiveram a operação reduzida.
Apesar dos cortes, a Mosaic afirma que não pretende deixar o mercado brasileiro. A estratégia prevê adequar a produção e a estrutura de distribuição ao cenário de menor oferta e demanda.
Uma das alternativas é utilizar produtos fabricados na América do Norte para abastecer o Brasil, caso haja disponibilidade nos Estados Unidos e no Canadá e os agricultores brasileiros mantenham a necessidade de compra.
Guerra e falta de enxofre pressionam mercado
A origem da atual restrição está ligada, na avaliação da Mosaic, aos conflitos geopolíticos no Oriente Médio e aos efeitos sobre o comércio pelo Estreito de Ormuz.
Um dos principais problemas está no enxofre, matéria-prima utilizada na fabricação de fertilizantes fosfatados. A estimativa apresentada por Wang é de que cerca de metade do enxofre consumido globalmente vinha do Oriente e era transportada pela região afetada pelo conflito.
Com a interrupção desse fluxo, a produção mundial de fosfatados já teria recuado aproximadamente 20%. Se a situação persistir, a redução pode chegar a 30% ou superar esse percentual.
A guerra entre Rússia e Ucrânia também aparece como fator de pressão sobre a disponibilidade da matéria-prima. Somados os dois conflitos, a executiva estima que mais de 60% do enxofre comercializado globalmente esteja fora do mercado.
Mesmo com uma eventual retomada das negociações e do comércio, a normalização não seria imediata. A estimativa apresentada é de que seriam necessários 12 a 18 meses para que o fornecimento de enxofre volte a níveis considerados normais, especialmente em razão dos possíveis danos provocados a estruturas de produção e refino.
Nutrição animal fica fora dos cortes
Nem todas as operações da Mosaic no Brasil devem sofrer o mesmo impacto. A unidade dedicada à produção de fosfatos utilizados na nutrição animal continuará funcionando.
A empresa considera esse segmento estratégico e afirma estar entre os principais fornecedores do mercado. A justificativa é que a cadeia de nutrição animal possui menos alternativas de abastecimento e que uma interrupção poderia afetar diretamente os produtores.
Paralelamente ao mercado tradicional de fertilizantes, a Mosaic avalia novas possibilidades de negócios no setor mineral. Entre as áreas analisadas estão as terras raras, consideradas pela companhia como uma possível frente de crescimento no Brasil.
A empresa também vem ampliando sua atuação em biociência, com produtos biológicos destinados à agricultura. Segundo Wang, esse segmento apresentou crescimento ao longo deste ano, em um cenário no qual os produtos podem ganhar espaço justamente pela pressão sobre os fertilizantes minerais.
Para o produtor brasileiro, o cenário dos próximos meses dependerá, portanto, de uma combinação de fatores: disponibilidade internacional de matéria-prima, evolução dos conflitos, retomada do comércio, preços dos grãos, condições climáticas e acesso ao crédito.
*Com Assessoria