Diploma ou viral: vale a pena fazer faculdade na era dos influenciadores?
Em meio às promessas de sucesso rápido nas redes sociais, artigo debate a influência do universo digital nas escolhas profissionais dos jovens e reflete sobre o papel da formação universitária
Por Amanda Cecília Gosmann
Com o constante crescimento e a evolução das novas tecnologias e dos meios de comunicação, vê-se que a forma como o mundo se apresenta a nós está mudando e, com isso, devemos nos adaptar e mudar junto dele. Ao adentrar a questão acadêmica e profissional, não é diferente. Aquilo que se aplicava décadas atrás não cabe mais nos dias atuais, e há o consenso de que aqueles cujos interesses estão “desatualizados” estão sendo passados para trás e perdendo grandes oportunidades.
Uma questão recorrente é: por que entrar em uma faculdade nos dias atuais, quando pegar um celular e “pensar fora da caixinha” pode deixá-lo rico em semanas?
Com as opiniões de diversas figuras públicas, influenciadores, celebridades e os comentados coaches que estão em todas as redes, bombardeando as novas gerações com promessas de vidas fora do comum, rotinas desatarefadas e grandes retornos financeiros, muitos jovens acabam por ficar encantados com a ideia, levando isso como um estilo de vida a ser seguido e planejando seu futuro a partir dessa perspectiva.
Ao analisar a modernidade líquida, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman observa que a sociedade atual favorece a velocidade, o imediatismo e as satisfações instantâneas em vez de elaborar projetos a longo prazo. Nesse contexto, essas promessas de enriquecimento rápido por meio das redes sociais se tornam extremamente atraentes para os adolescentes e os jovens adultos, já que parecem uma alternativa satisfatória aos anos de estudo árduo necessários para alcançar uma formação.
No entanto, é comum que a exceção seja tratada como se fosse a maioria dos casos, gerando uma visão totalmente distorcida do mercado de trabalho e das verdadeiras chances de êxito daqueles que decidem percorrer esse caminho.
Nesse raciocínio, o tempo não é visto como um investimento, mas sim como um obstáculo e até um problema a ser superado, tornando a vida acadêmica menos interessante diante de olhos que veem as promessas de resultados quase que imediatos.
Esse tipo de vida excepcional retratada, porém, abrange apenas uma pequena parcela daqueles que ousam tentar a sorte na dependência de likes e visualizações. E, para aqueles que ficarem na porcentagem dos que não viralizaram, o que restará?
Com a evasão escolar cada vez maior, esses jovens se encontrarão futuramente perdidos em meio a diversas ofertas e não estarão prontos para ocupar cargos com remunerações maiores, pois, em sua maioria, exigem uma formação especializada.
Todos os dias, milhões de pessoas postam vídeos e se expressam por meio das redes sociais, criando uma superlotação e saturação de conteúdos. Essa repetição e o excesso de criadores de conteúdo não costumam ser explicitados nos discursos das figuras que os jovens admiram, o que dificulta a tomada de decisão desses estudantes, que acabam se deixando levar pelas expectativas sem o aconselhamento adequado.
Outrossim, cada vez mais as instituições de cursos superiores estão tendo suas salas apenas parcialmente ocupadas, e isso torna-se preocupante, uma vez que os jovens brasileiros na faixa etária mais decisiva de suas vidas serão influenciados a abandonar os estudos por algo mais fácil e rápido, que nem sempre trará os resultados almejados.
Essas afirmações têm sido confirmadas por meio de diversos estudos, como o Censo da Educação Superior, publicado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que afirma que milhões de estudantes ingressam anualmente no ensino superior brasileiro, mas uma grande parcela não conclui seus cursos, especialmente nos primeiros anos, evidenciando que a permanência na universidade ainda é um grande desafio.
As razões para esse fenômeno são diversas, incluindo dificuldades financeiras, a necessidade de conciliar trabalho e estudos, problemas familiares e a falta de identificação com o curso escolhido. Esses pontos todos levam especialistas a se preocupar cada vez mais com a desmotivação dos jovens em relação à educação formal, em um cenário no qual as carreiras digitais apresentam-se como caminhos fáceis para a independência financeira tão desejada pelos jovens brasileiros.
Contudo, é de bom tom ressaltar que possuir um diploma universitário não é sinônimo de enriquecer, mas é um dos maiores responsáveis pela abertura de portas no mercado de trabalho atual.
O economista Gary Becker, vencedor do Prêmio Nobel, desenvolveu a teoria do capital humano, que sustenta que investir em educação tende a elevar a produtividade e a qualificação, o que, por sua vez, aumenta as oportunidades de alcançar maiores conquistas ao longo da vida.
Com essa perspectiva, a graduação vai além de apenas receber um diploma; é um elemento essencial na moldagem do pensamento crítico, técnico e intelectual do indivíduo.
Dessa forma, embora as redes sociais possam representar grandes oportunidades de crescimento profissional, é fundamental que os jovens desenvolvam senso crítico para distinguir promessas vazias de possibilidades concretas.
A educação formal continua sendo um dos caminhos mais seguros para ampliar oportunidades e preparar indivíduos para enfrentar os desafios de uma sociedade em constante transformação, como diria Derek Bok, ex-presidente de Harvard: “Se você acha a educação cara, experimente a ignorância.”
Sobre a autora: Amanda Cecília Gosmann é acadêmica de Direito na Universidade Santa Amélia (Unisecal) e atua como assistente jurídica. Dedica-se a estudos nas áreas de Filosofia, Direito e Literatura, com interesse na produção de textos voltados à reflexão sobre temas jurídicos, sociais e filosóficos.