Oficina em Castro resgata memórias da Colônia Terra Nova e período de perseguição aos alemães

Quinta edição do projeto reuniu professores, moradores e visitantes para discutir o silêncio imposto durante o Estado Novo e a retomada cultural da comunidade

Emerson Teixeira

Castro – As lembranças de um período marcado por perseguições, mudanças de identidade e interrupções na vida comunitária voltaram a ocupar espaço na Escola de Terra Nova, em Castro. Na manhã de quarta-feira (16), a quinta oficina do projeto “Memórias de Terra Nova: Raízes, Lembranças e Identidade” reuniu integrantes da comunidade para revisitar episódios que fazem parte da formação histórica da colônia.

O encontro foi conduzido pelo historiador Alexandre Hubert, em parceria com a Escola de Terra Nova. O projeto começou no início de 2026 com a proposta de aproximar a história da localidade do currículo escolar, permitindo que os estudantes conheçam o contexto social e cultural em que vivem.

A oficina desta quarta-feira concentrou-se em um dos períodos mais delicados da trajetória da comunidade: os anos em que os descendentes de alemães passaram a sofrer restrições em razão da política de nacionalização implantada durante o Estado Novo, a partir de 1937, e posteriormente em meio ao contexto da Segunda Guerra Mundial.

O período do “grande silêncio”

Um dos temas apresentados foi justamente o chamado “grande silêncio”, período em que falar alemão passou a ser motivo de repressão. A situação se agravou com a associação de parte da comunidade à chamada “quinta-coluna”, expressão utilizada para identificar pessoas suspeitas de colaborar com os países do Eixo durante a guerra.

O conteúdo apresentado durante a oficina também abordou a presença de representantes do nazismo na Colônia Terra Nova, mas destacou um movimento ocorrido dentro da própria comunidade em oposição à ideologia.

Registros publicados pelo Castro Jornal foram utilizados para recuperar acontecimentos daquele período. Entre eles estão relatos sobre manifestações de moradores contrários ao nazismo. Um grupo de migrantes chegou a demonstrar publicamente sua posição, declarando solidariedade ao governo brasileiro e oposição ao movimento nazista.

A consulta aos jornais antigos ajudou a reconstruir um cenário que, por muitos anos, permaneceu pouco discutido. A história também apareceu por meio de relatos de pessoas que viveram aquele período ou que receberam as memórias de seus pais e familiares.

Da perseguição à reconstrução da identidade

A trajetória do fundador da colônia, o cônsul Benno Aeldert, também fez parte da programação. As pesquisas apresentadas apontam que, já no início da década de 1930, ele mantinha reuniões com políticos e pessoas influentes de Castro para planejar a formação da Colônia Terra Nova.

A aquisição da área pela companhia responsável pela colonização também foi abordada. Outro ponto discutido foi o afastamento de Elser da comunidade em um momento de crescente pressão sobre os colonos alemães.

A perseguição atingiu especialmente pessoas que ocupavam funções políticas e administrativas, levando algumas delas a se esconder ou deixar a colônia.

Com o fim do Estado Novo, começou um processo gradual de reconstrução da vida comunitária. A busca por uma identidade brasileira passou a fazer parte dessa transformação, à medida que muitos moradores deixaram de querer ser identificados exclusivamente pela origem alemã.

A retomada das manifestações culturais ganhou força principalmente na década de 1950, período tratado na oficina como um momento de renascimento cultural de Terra Nova.

Historiador Alexandre Ruppert. Foto: Divulgação

Escola e clube voltam a ocupar espaço central

A reconstrução da escola e do clube foi outro capítulo apresentado aos participantes. Nesse período surgiu o Clube Recreativo e Cultural 25 de Julho, que passou a ter papel importante na vida social da colônia.

Nos primeiros anos, o espaço também serviu para abrigar a escola. As atividades realizadas pelo clube contribuíam para custear o trabalho das professoras que atendiam as crianças.

A educação havia passado por anos de instabilidade durante a década de 1940. As aulas não eram mantidas de maneira contínua e houve períodos em que as crianças ficaram sem professores por um ou até mais anos.

A chegada das professoras Alícia Hoffmann e Gudula Maus, em 1957, mudou esse cenário. Além das atividades pedagógicas, as duas mantinham uma rotina próxima das famílias, ensinando português e alemão, preparando alimentos para as crianças e participando de atividades culturais, como danças.

Gudula Maos, hoje com 88 anos, esteve presente na oficina desta quarta-feira. Uma das primeiras professoras da comunidade, ela compartilhou lembranças daquele período e relatos sobre experiências vividas pela própria família durante os anos de perseguição.

Memória contada por quem viveu

A presença de moradores mais antigos deu ao encontro um caráter diferente das exposições baseadas apenas em documentos. Entre os participantes estava um homem de 85 anos, além de Gudula, que ajudaram a trazer relatos sobre acontecimentos vivenciados diretamente ou transmitidos por seus pais.

As lembranças provocaram comentários e novas histórias entre os participantes, formando uma espécie de reconstrução coletiva da memória local.

Participaram da oficina professores e funcionários da Escola de Terra Nova, moradores da comunidade e pessoas que vieram de Castro interessadas em conhecer mais sobre a formação da colônia.

Para Alexandre Hubert, essa troca entre documentos históricos e memória oral é parte fundamental do projeto, que pretende preservar não apenas datas e acontecimentos, mas também as experiências das famílias que ajudaram a construir Terra Nova.

Projeto terá nova etapa em outubro

A quinta oficina encerra o ciclo principal de atividades previsto para 2026, mas o projeto terá uma etapa complementar em outubro. A programação deverá levar os participantes ao Museu de Terra Nova e à Igreja de Terra Nova, aproximando o conteúdo discutido nas oficinas dos espaços que fazem parte dessa trajetória.

A proposta também prevê a produção de um livreto sobre a história da comunidade, reunindo informações e fotografias levantadas ao longo do projeto.

O trabalho de reconstrução da memória, neste caso, não fica restrito aos arquivos. Documentos antigos, fotografias e principalmente os relatos de quem viveu ou ouviu essas histórias dentro de casa passam a formar um mesmo acervo. É nesse cruzamento entre passado registrado e lembrança compartilhada que a história de Terra Nova continua sendo contada.

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