A Emancipação Política: Dos bastidores aos primeiros dias
Dos 3.024 eleitores cadastrados, 2.836 votaram a favor da criação da nova cidade (93%!) e apenas 121 foram contrários
NEY HERMANN
Desde que a Cooperativa Batavo (atual Frísia) mudou o perfil econômico de Carambeí, os moradores da antiga colônia holandesa começaram a discutir a possibilidade de criar um novo município. Mas não era um processo fácil. A semente da emancipação política foi plantada em 1966, quando a localidade foi transformada em distrito. Depois ganhou corpo em 1977, com a instalação da subprefeitura.
No entanto, esses pequenos passos de aparente autonomia na verdade visavam apenas acalmar os moradores, que estavam profundamente insatisfeitos com a ausência de investimentos públicos. A manutenção de Carambeí era feita pela Cooperativa, sem ajuda estatal. Os impostos arrecadados pela Batavo simplesmente não retornavam para a comunidade, de acordo com as lideranças da época. Por isso era natural reivindicar a emancipação. Só tinha um problema: se Carambeí virasse um município Castro perderia 40% de sua arrecadação. Motivo suficiente para que os políticos da época postergassem o assunto pelo maior tempo possível.
1996
Em 1996 ocorreram as eleições municipais e a profecia de Aníbal Khury se concretizou: Alci Pedroso se tornou o primeiro prefeito de Carambeí!
Mesmo assim, a emancipação começou a ser tratada formalmente em 1987, com apoio do deputado estadual Edmar Luiz Costa, de Ponta Grossa, que era muito respeitado na ALEP. O processo foi interrompido por entraves políticos e uma triste notícia: a partida precoce do deputado, que morreu de câncer, em 1989, deixando um profundo vazio na representação política dos Campos Gerais.
A retomada decisiva ocorreu no começo dos Anos 1990, agora sob a articulação do então presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Paraná, Aníbal Khury (1924-1999), conhecido por ter alterado a geografia paranaense ao criar dezenas de municípios. Quando souberam do interesse de Khury no assunto, os vereadores da Câmara Municipal de Castro entraram na justiça para barrar o processo de emancipação. Isso surtiu resultado. Pelo menos num primeiro momento.
Como se não bastassem as objeções de Castro, os defensores da emancipação tiveram ainda dores de cabeça com outro município. O funcionário público Luiz Carlos Iung, que trabalha em Carambeí desde o primeiro dia de funcionamento da Prefeitura, destaca que a formatação do território foi um momento delicado, pois abocanhava uma parte considerável de Ponta Grossa. “Se a primeira medição de terreno fosse aprovada, Carambeí iria até o rio Pitangui, ao lado da sede campestre do Clube Verde”, explica Iung. “Ponta Grossa, o maior município dos Campos Gerais, não concordou. Por isso, os interessados na criação de Carambeí tiveram que refazer o mapa pelo menos cinco vezes, até chegarmos no território atual”. Com Ponta Grossa serenada, restava a Cidade Mãe do Paraná.
Mas Khury, experiente, sabia que era preciso apenas encontrar de um bom aliado local. Um político habilidoso. Foi quando Rivadávia Menarim, prefeito de Castro e amigo pessoal de Khury, apresentou o vereador Alci Pedroso, que representava o distrito de Carambeí na Câmara de Castro, para o presidente da ALEP. A sinergia foi imediata.
Gleidson
O jornalista Gleidson Greitner, autor do livro “Trajetória da Emancipação de Carambéi”, conta que Aníbal Khury tinha selado um acordo com Alci. Se ele conseguisse 300 para Khury, que era candidato a reeleição como deputado estadual nas eleições de 1994, Carambeí receberia o apoio incondicional de Aníbal. Pois bem. Pedroso trabalhou muito e o resultado superou as expectativas. Khury fez 800 votos. Alegre com a votação, Aníbal disse para Alci: “Agora eu vou fazer você se tornar o primeiro prefeito da cidade que está criando!”
Em seu livro, Gleidson Greitner, que também é secretário de Comunicação da Prefeitura de Carambeí, revela o poder que Aníbal exercia no Paraná. No ano seguinte, mesmo com a resistência de uma parte considerável dos políticos castrenses, Khury, conhecido por honrar os acordos que selava, cumpriu sua promessa. No dia 3 de dezembro de 1995 ocorreu o plebiscito para que os moradores da localidade decidissem se queriam ou não criar um novo município.
Gleidson Greitner diz que “o eleitor não era obrigado a votar, por isso era preciso que a população fosse conscientizada sobre a relevância política da realização de um plebiscito. Uma grande campanha foi iniciada com o objetivo de esclarecer os eleitores sobre as diferenças entre um distrito e um município. Uma ação que foi essencial para que as pessoas pudessem compreender a magnitude do que estava sendo proposto.”
A votação ocorreu em educandários da cidade, como o Colégio Estadual Júlia Wanderley. O resultado foi incontestável. Os moradores de Carambeí, de Catanduvas de Fora e do bairro do Boqueirão (estes últimos pertencentes a Ponta Grossa) aprovaram a emancipação de Carambeí com ampla maioria. Dos 3.024 eleitores cadastrados, 2.836 votaram a favor da criação da nova cidade (93%!) e apenas 121 foram contrários à iniciativa. A Justiça Eleitoral contabilizou ainda 15 votos em branco, 14 nulos e 149 abstenções. Em 13 de dezembro de 1995 a lei 11.225, que oficialmente criava Carambeí, foi sancionada pelo governador do Paraná, Jaime Lerner, no Palácio das Araucárias, em Curitiba.
Em 1996 ocorreram as eleições municipais e a profecia de Aníbal Khury se concretizou: Alci Pedroso se tornou o primeiro prefeito de Carambeí!
Iung
Luiz Carlos Iung testemunhou de perto o nascimento do município. Ele recorda o cenário inicial, caracterizado pelo improviso e pela dedicação. “Eu estou aqui desde 1º de janeiro de 1997. Lembro como se fosse hoje. Depois da posse, na prefeitura tinha uma mesa e uma cadeira no gabinete do prefeito, que eram dele mesmo. Não tínhamos nada. Nem canetas. Tudo foi construído do zero”, conta Iung. “No começo não existia computadores. Fazíamos o trabalho com máquinas de escrever. Muita coisa foi cedida pela Cooperativa Frísia”, acrescentou.
Apesar das dificuldades iniciais, a primeira gestão, com o apoio de Aníbal Khury, conseguiu construir a base para o crescimento. “Carambeí partiu do nada, é verdade. Mas isso não nos limitou”, enfatiza Iung.
Depois da posse, na prefeitura tinha uma mesa e uma cadeira no gabinete do prefeito, que eram dele mesmo. Não tínhamos nada. Nem canetas. Tudo foi construído do zero
Luiz Carlos Iung

Três décadas depois, o crescimento é notável. A população saltou de aproximadamente 7 mil habitantes, em 1995, para aproximadamente 24 mil moradores atualmente.
O município transformou sua infraestrutura, com a construção de escolas, centros de saúde e a pavimentação de estradas rurais.
“Tudo o que foi realizado desde 97 até hoje demonstra nosso crescimento. O cuidado médico, por exemplo, evoluiu muito e agora nós temos um excelente centro de saúde, com atendimento 24 horas”, atesta o funcionário público, que se diz satisfeito com o desenvolvimento da cidade que ajudou a construir. “Sei que há muito por fazer, mas nossos gestores são zelosos e competentes. Portanto, posso afirmar que temos um futuro brilhante pela frente”, finaliza Luiz Carlos Iung.
